terça-feira, 25 de setembro de 2012

VOCÊ, UM ANIMAL

Não foram homens. Foram animais. 

Ela estava com um vestido justo e decotado. Seus longos cabelos cacheados deslizavam pelas costas lisas e sedosas. Sua boca estava coberta com um gloss vermelho que encantava a todos. 

Ela dançava requebrando, sem vergonha alguma. Ela sabia que seu corpo era uma máquina de sedução, & não deixava nenhuma dúvida de que seu objetivo, ali, era levar um homem à loucura. 

Sem refletir muito, bebeu tudo o que podia: vodka, contini, campari, jurupinga. Um dos rapazes, dotado de um peitoral maciço decorado com uma corrente de ouro, deu-lhe um comprimido azul, que ela engoliu a seco.

A hora passou, & apareceram uns caras estranhos, mal encarados. As amigas resolveram ir embora. Ela, sem prestar muita atenção no que acontecia, ficou na pista, rebolando. Seu corpo pecava lindamente: ela não era uma mulher, era um avião. Um avião abastecido com combustível adulterado. Acidentes assim podem ser fatais.

Uma vertigem a acometeu. Sua boca salivava, & seu sexo, molhado, palpitava. Dois homens sem camisa a abraçaram. Ela sentiu um ardor enorme dentro de sua alma carente. Fez-se uma luz & tudo ofuscou.

As amigas não sabiam mais o que fazer. Ela não atendia o telefone de casa. O celular estava sempre na caixa postal. Há dois dias ela não aparecia na loja para trabalhar. Era preciso tomar uma atitude. Os pais não estavam muito interessados no sumiço da filha. Também haviam telefonado para saber dela, mas achavam que, como ela não atendia, devia ser um problema com a operadora.

Bateram na porta incessantemente. Havia um ruído de rádio no interior do apartamento. Ela devia estar lá. Um vizinho tomou coragem &, apoiando as costas na parede e pressionando com o pé, arrombou a porta. Elas disseram que ele não poderia entrar & o agradeceram. Era uma triste visão.

O banheiro estava alagado. Rolos molhados de papel higiênico com sangue se espalhavam pelo chão. Toalhas manchadas de vermelho & de maquiagem ornavam terrivelmente o vaso sanitário & a pia. Muito vômito & fezes por toda parte. O odor era insuportável.

Esfregando a pele cheia de escoriações, a garota tinha os olhos opacos dirigidos para a janela. Uma garrafa de desinfetante vazia boiava dentro do box. As amigas a tiraram de lá, & não continham nem as próprias lágrimas nem o choro soluçante. Sujaram as camisetas da loja com o sangue dos arranhões dela.

Ela não se lembrava de muita coisa. Apenas disse que fora abraçada por dois garotos corpulentos, & que amanhecera no banheiro do baile, sem calcinha & com o vestido rasgado. Sentira sua rosa florescente agredida por cravos. Ao passar os dedos nela, percebera a crueldade que lhe haviam feito. Ofendida pelos presentes, xingada de puta, saíra seminua pela rua, & se trancara em casa. Não sabendo o que fazer nem com quem contar, purificara o corpo & o sexo com desinfetante.

Agora ela não mora mais lá. Ninguém bancou o homem galante com ela. Nenhuma mulher teve piedade ao fofocar o caso. A polícia nem pôde fazer muita coisa, pois um intelectual da ONG disse: "Isso acontece em qualquer lugar. Polícia aqui não. Só vai piorar o clima, que já é tenso." Então, ela teve de sair do apartamento que acabara de comprar. Sua vida, apesar de marcada, está muito melhor.

O líder comunitário ainda grita no sarau: "Nós vamos mudar isso aqui, & não nos mudar daqui. Os incomodados que se mudem." Ele se ajoelha para pedir perdão a todas as mulheres do mundo pela violência que os homens cometem contra elas, mas idolatra o cangaço. Basta perguntarem para as grandes avós nordestinas, & elas lhes dirão o quanto os cangaceiros apreciavam abusar sexualmente das mulheres. Principalmente das mais pobres.

Ajoelhe-se mesmo, ó grande líder. Você tem parte nessa história.

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